Roteiro para Reunião Mensal Outubro

Roteiro para Reunião Mensal Outubro – Pastoral Litúrgica


Acolhida:
Entregar a cada pessoa que chega uma pegada recortada de papel. Pedir que escreva o próprio nome na mesma.

Ambiente:
Preparar um local com panos das cores dos continentes. Colocar um globo, a bíblia velas e um pouco de sal.



1. Oração Inicial
Canto:
1- Um dia escutei teu chamado,
divino recado batendo no coração.
Deixei deste mundo as promessas
e fui bem depressa no rumo da Tua mão.

Tu és a razão da jornada,
Tu és minha estrada, meu guia e meu  fim.
No grito que vem do Teu povo
Te escuto de novo chamando por mim.

2- Os anos passaram ligeiro,
me fiz um obreiro do Reino de  Paz  e  amor.
Nos mares do mundo navego e às redes me entrego,
tornei-me Teu pescador.

3-  Embora tão fraco e pequeno
caminho sereno com a força que vem   de    Ti.
A cada momento que passa,
revivo esta graça de ser Teu sinal aqui.



Invocação ao Espírito Santo

Oh vinde, Espírito Criador,
as nossas almas visitai
e enchei os nossos corações
com vossos dons celestiais.

Vós sois chamado o Intercessor,
do Deus excelso o dom sem par,
a fonte viva, o fogo, o amor,
a unção divina e salutar.

Sois doador dos sete dons,
e sois poder na mão do Pai,
por ele prometido a nós,
por nós seus feitos proclamais.

A nossa mente iluminai,
os corações enchei de amor,
nossa fraqueza encorajai,
qual força eterna e protetor.

Nosso inimigo repeli,
e concedei-nos vossa paz;
se pela graça nos guiais,
o mal deixamos para trás.

Ao Pai e ao Filho Salvador
por vós possamos conhecer.
Que procedeis do seu amor
fazei-nos sempre firmes crer.

Recordação da vida
(Recordar em especial os acontecimentos da vida litúrgica da Igreja em geral e da comunidade local. Recordar as motivações que teremos para celebrar no mês de agosto)

Cantar: recordações, lembranças da vida, sofrida e querida na festa e na dor, recebe nas mãos a recordação dos filhos e filhas amados, Senhor.

Mantra/Aclamação

“Que arda como brasa, Tua Palavra no renove. Esta chama que a boca proclama! (bis).”

Leitura do Texto bíblico:  Atos 8, 26-39
26 Um anjo do Senhor falou a Filipe, dizendo: «Prepare-se e vá para o sul, pelo caminho que desce de Jerusalém para Gaza; é o caminho que se acha no deserto.» Filipe levantou-se e foi. 27 Nisso apareceu um eunuco etíope, ministro de Candace, rainha da Etiópia. Ele era administrador geral do tesouro dela. Tinha ido a Jerusalém em peregrinação, 28 e estava voltando para casa. Ia sentado em seu carro, lendo o profeta Isaías. 29 Então o Espírito disse a Filipe: «Aproxime-se desse carro e o acompanhe.» 30 Filipe correu, ouviu o eunuco ler o profeta Isaías, e perguntou: «Você entende o que está lendo?» 31 O eunuco respondeu: «Como posso entender, se ninguém me explica?» Então convidou Filipe a subir e a sentar-se junto a ele.

32 A passagem da Escritura que o eunuco estava lendo era esta: «Ele foi levado como ovelha ao matadouro. E como um cordeiro perante o seu tosquiador, ele ficava mudo e não abria a boca. 33 Eles o humilharam e lhe negaram a justiça. Quem poderá contar seus seguidores? Porque eles o arrancaram da terra dos vivos.» 34 Então o eunuco disse a Filipe: «Por favor me explique: de quem o profeta está dizendo isso? Ele fala de si mesmo, ou se refere a outra pessoa?» 35 Então Filipe foi explicando. E, tomando essa passagem da Escritura como ponto de partida, anunciou Jesus ao eunuco. 36 Continuando o caminho, chegaram a um lugar onde havia água. Então o eunuco disse a Filipe: «Aqui existe água. O que impede que eu seja batizado?» 37 Filipe lhe disse: «É possível, se você acredita de todo o coração.» O eunuco respondeu: «Eu acredito que Jesus Cristo é o Filho de Deus!» 38 Então o eunuco mandou parar o carro. Os dois desceram junto às águas, e Filipe batizou o eunuco. 39 Quando saíram da água, o Espírito arrebatou Filipe, e o eunuco não o viu mais. Então prosseguiu sua viagem, cheio de alegria.

Preces:
Fazer um momento de preces espontâneas, depois de cada um pode-se cantar:
“A igreja vos pede oh Pai, Senhor nossa prece escutai.”

Encerra-se o momento das preces rezando o Pai Nosso


Vivência:

A) Convidar cada um a relembrar como foi o chamado e quais as primeiras missões que assumiu na Igreja.

B) Cada um é convidado a colocar sua pegada no ambiente fazendo um propósito em relação à missão.

C) Quem preside diz a oração: Ó Deus, para salvar todas as pessoas enviastes ao mundo o Vosso Filho querido para anunciar a Boa-Nova aos pobres. Constituístes a Vossa Igreja como sacramento universal de Salvação, para que a Redenção realizada na cruz permanecesse atuante até o fim dos tempos. Olhai com bondade para estes Vossos Filhos e Filhas que, respondendo ao Vosso chamado, colocam suas vidas a serviço da evangelização e da promoção das crianças do mundo todo. Fazei que anunciem com firmeza a Vossa Palavra e que perseverem no Vosso amor.

D) Cada pessoa pega uma pegada com o nome de outra pessoa e entregando a pegada diz: Anuncia com a tua vida a Boa Nova do Reino de Deus.



D) Partilha sobre a Vivência

Dar um tempo para que cada um se manifeste sobre a experiência do recorte do rito de benção e consagração do óleo do crisma.



2. Estudo de temas
Se o grupo for grande pode-se dividir em quatro grupos, se for menor escolham, pelo menos, dois temas de estudo. (veja os temas em anexo abaixo)
Cada grupo vai ler o texto e responder às perguntas:
1. Quais as idéias mais importantes do texto?
2. O que o texto tem há ver com nossa realidade concreta?
3. O que podemos fazer para relacionar as idéias dos textos com vivência da liturgia nas celebrações deste mês?

Faz-se uma apresentação de cada grupo para os outros grupos. Escolhem-se as sugestões que possam ser assumidas pela Pastoral Litúrgica como um todo.

3. Encaminhamentos práticos da Pastoral Litúrgica
Ver as questões a serem encaminhadas sobre formação, reuniões e organização das equipes de celebração, etc...



4. Oração Final

Quem preside diz: Pai de misericórdia, que criaste o mundo e o confiaste aos seres humanos. Guie-nos com teu Espírito para que, como Igreja missionária de Jesus, cuidemos da Casa Comum com responsabilidade. Maria, Mãe Protetora, inspira-nos nessa missão. Amém.


Oração de benção
Terminado o a unção e o canto, quem preside reza a oração de benção:
O Senhor te abençoe e te guarde. O Senhor faça brilhar sobre ti sua face, e se compadeça de ti. O Senhor volte para ti o seu rosto e te dê a paz!

Despedida e abraço da Paz

Motivar todos a saudarem-se com abraço da paz.

Canto Final
Senhor, se tu me chamas eu quero te ouvir, se queres que eu te siga respondo: eis-me aqui!
1. Profetas te ouviram e seguiram tua voz. Andaram mundo afora e pregaram sem temor. Seus passos tu firmaste sustentando seu vigor. Profeta tu me chamas: vê, Senhor, aqui estou!
2. Nos passos de teu Filho toda a Igreja também vai, seguindo teu chamado de ser santa qual Jesus. Apóstolos e mártires se deram sem medir. Apóstolo me chamas: vê, Senhor, estou aqui!


Textos para o Estudo

Texto 1
MENSAGEM DE SUA SANTIDADE PAPA FRANCISCO
PARA O DIA MUNDIAL DAS MISSÕES 2016



Tema: Igreja missionária, testemunha de misericórdia



Queridos irmãos e irmãs!

O Jubileu Extraordinário da Misericórdia, que a Igreja está a viver, proporciona uma luz particular também ao Dia Mundial das Missões de 2016: convida-nos a olhar a missão ad gentes como uma grande, imensa obra de misericórdia quer espiritual quer material. Com efeito, neste Dia Mundial das Missões, todos somos convidados a «sair», como discípulos missionários, pondo cada um a render os seus talentos, a sua criatividade, a sua sabedoria e experiência para levar a mensagem da ternura e compaixão de Deus à família humana inteira. Em virtude do mandato missionário, a Igreja tem a peito quantos não conhecem o Evangelho, pois deseja que todos sejam salvos e cheguem a experimentar o amor do Senhor. Ela «tem a missão de anunciar a misericórdia de Deus, coração pulsante do Evangelho» (Bula Misericordiae Vultus, 12), e anunciá-la em todos os cantos da terra, até alcançar toda a mulher, homem, idoso, jovem e criança.

A misericórdia gera íntima alegria no coração do Pai, sempre que encontra cada criatura humana; desde o princípio, Ele dirige-Se amorosamente mesmo às mais vulneráveis, porque a sua grandeza e poder manifestam-se precisamente na capacidade de empatia com os mais pequenos, os descartados, os oprimidos (cf. Dt 4, 31; Sal 86, 15; 103, 8; 111, 4). É o Deus benigno, solícito, fiel; aproxima-Se de quem passa necessidade para estar perto de todos, sobretudo dos pobres; envolve-Se com ternura na realidade humana, tal como fariam um pai e uma mãe na vida dos seus filhos (cf. Jr 31, 20). É ao ventre materno que alude o termo utilizado na Bíblia hebraica para dizer misericórdia: trata-se, pois, do amor duma mãe pelos filhos; filhos que ela amará sempre, em todas as circunstâncias suceda o que suceder, porque são fruto do seu ventre. Este é um aspeto essencial também do amor que Deus nutre por todos os seus filhos, especialmente pelos membros do povo que gerou e deseja criar e educar: perante as suas fragilidades e infidelidades, o seu íntimo comove-se e estremece de compaixão (cf. Os 11, 8). Mas Ele é misericordioso para com todos, o seu amor é para todos os povos e a sua ternura estende-se sobre todas as criaturas (cf. Sal 144, 8-9).

A misericórdia encontra a sua manifestação mais alta e perfeita no Verbo encarnado. Ele revela o rosto do Pai, rico em misericórdia: «não somente fala dela e a explica com o uso de comparações e parábolas, mas sobretudo Ele próprio a encarna e a personifica» (João Paulo II, Enc. Dives in misericordia, 2). Aceitando e seguindo Jesus por meio do Evangelho e dos Sacramentos, com a ação do Espírito Santo, podemos tornar-nos misericordiosos como o nosso Pai celestial, aprendendo a amar como Ele nos ama e fazendo da nossa vida um dom gratuito, um sinal da sua bondade (cf. Bula Misericordiae Vultus, 3). A primeira comunidade que, no meio da humanidade, vive a misericórdia de Cristo é a Igreja: sempre sente sobre si o olhar d’Ele que a escolhe com amor misericordioso e, deste amor, ela deduz o estilo do seu mandato, vive dele e dá-o a conhecer aos povos num diálogo respeitoso por cada cultura e convicção religiosa.

Como nos primeiros tempos da experiência eclesial, há tantos homens e mulheres de todas as idades e condições que dão testemunho deste amor de misericórdia. Sinal eloquente do amor materno de Deus é uma considerável e crescente presença feminina no mundo missionário, ao lado da presença masculina. As mulheres, leigas ou consagradas – e hoje também numerosas famílias –, realizam a sua vocação missionária nas mais variadas formas: desde o anúncio direto do Evangelho ao serviço sociocaritativo. Ao lado da obra evangelizadora e sacramental dos missionários, aparecem as mulheres e as famílias que entendem, de forma muitas vezes mais adequada, os problemas das pessoas e sabem enfrentá-los de modo oportuno e por vezes inédito: cuidando da vida, com uma acrescida atenção centrada mais nas pessoas do que nas estruturas e fazendo valer todos os recursos humanos e espirituais para construir harmonia, relacionamento, paz, solidariedade, diálogo, cooperação e fraternidade, tanto no setor das relações interpessoais como na área mais ampla da vida social e cultural e, de modo particular, no cuidado dos pobres.

Em muitos lugares, a evangelização parte da atividade educativa, à qual o trabalho missionário dedica esforço e tempo, como o vinhateiro misericordioso do Evangelho (cf. Lc 13, 7-9; Jo 15, 1), com paciência para esperar os frutos depois de anos de lenta formação; geram-se assim pessoas capazes de evangelizar e fazer chegar o Evangelho onde ninguém esperaria vê-lo realizado. A Igreja pode ser definida «mãe», mesmo para aqueles que poderão um dia chegar à fé em Cristo. Espero, pois, que o povo santo de Deus exerça o serviço materno da misericórdia, que tanto ajuda os povos que ainda não conhecem o Senhor a encontrá-Lo e a amá-Lo. Com efeito a fé é dom de Deus, e não fruto de proselitismo; mas cresce graças à fé e à caridade dos evangelizadores, que são testemunhas de Cristo. Quando os discípulos de Jesus percorrem as estradas do mundo, é-lhes pedido aquele amor sem medida que tende a aplicar a todos a mesma medida do Senhor; anunciamos o dom mais belo e maior que Ele nos ofereceu: a sua vida e o seu amor.

Cada povo e cultura tem direito de receber a mensagem de salvação, que é dom de Deus para todos. E a necessidade dela redobra ao considerarmos quantas injustiças, guerras, crises humanitárias aguardam, hoje, por uma solução. Os missionários sabem, por experiência, que o Evangelho do perdão e da misericórdia pode levar alegria e reconciliação, justiça e paz. O mandato do Evangelho – «Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado» (Mt 28, 19-20) – não terminou, antes pelo contrário impele-nos a todos, nos cenários presentes e desafios atuais, a sentir-nos chamados para uma renovada «saída» missionária, como indiquei na Exortação Apostólica Evangelii gaudium: «cada cristão e cada comunidade há de discernir qual é o caminho que o Senhor lhe pede, mas todos somos convidados a aceitar esta chamada: sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho» (n. 20).

Precisamente neste Ano Jubilar, celebra o seu nonagésimo aniversário o Dia Mundial das Missões, promovido pela Pontifícia Obra da Propagação da Fé e aprovado pelo Papa Pio XI em 1926. Por isso, considero oportuno recordar as sábias indicações dos meus Predecessores, estabelecendo que fossem destinadas a esta Opera todas as ofertas que cada diocese, paróquia, comunidade religiosa, associação e movimento, de todo o mundo, pudessem recolher para socorrer as comunidades cristãs necessitadas de ajuda e revigorar o anúncio do Evangelho até aos últimos confins da terra. Também nos nossos dias, não nos subtraiamos a este gesto de comunhão eclesial missionário; não restrinjamos o coração às nossas preocupações particulares, mas alarguemo-lo aos horizontes da humanidade inteira.

Santa Maria, ícone sublime da humanidade redimida, modelo missionário para a Igreja, ensine a todos, homens, mulheres e famílias, a gerar e guardar por todo o lado a presença viva e misteriosa do Senhor Ressuscitado, que renova e enche de jubilosa misericórdia as relações entre as pessoas, as culturas e os povos.

Vaticano, 15 de maio – Solenidade de Pentecostes – de 2016.


Texto 2

Eucaristia: fonte da missão e vida solidária

Por Pe. Benedito Ferraro
 
“Bendito sejais, Senhor Deus do Universo, pelo pão e pelo vinho que recebemos da vossa bondade, fruto da terra e da videira e do trabalho do homem e da mulher, da cidade e do campo, que agora vos apresentamos, e que para nós vão se tornar pão da vida e cálice da salvação.”



O 14º Congresso Eucarístico Nacional foi realizado em Campinas nos dias 19 a 22 de julho de 2001. Certamente não podemos aquilatar todos os resultados desse acontecimento que reuniu pessoas vindas de quase todos os Estados do Brasil, colocando na mesa comum suas experiências, colaborando com o enriquecimento mútuo.

Retomando parte dessa memória, queremos refletir sobre o pão e o vinho, que apresentamos ao Senhor e que se tornam para nós Pão da Vida e Vinho da Salvação. Queremos, nessa perspectiva, ligar a Eucaristia com a vida do dia a dia. Ligar a Eucaristia com a vida dos trabalhadores e trabalhadoras, que produzem o pão e o vinho e que, por causa de um sistema injusto, acabam, muitas vezes, ficando sem o alimento necessário para manter a vida.



1. Pão real: sustento da vida

Como diz a oração das oferendas, o pão e o vinho são frutos da terra e do trabalho do homem e da mulher. Isso significa que neles há muito trabalho incorporado. Há muita vida e muito suor: “A ideia de Jesus é genial: reunir os homens e mulheres na unidade, partindo não das ideias, mas da matéria. A força da unificação e conciliação dos homens e mulheres, a energia oculta que nos une é Cristo, mas Cristo quer que esta energia seja colhida e simbolizada no pão e no vinho. Porque o pão e o vinho nos unem na mesa e são o símbolo desta união… E o pão e o vinho significam que só podemos realizar a união através da produção. O Pão nasce da terra, mas para ser pão deve passar pela mediação do homem e da mulher. O pão simboliza o produto indispensável à vida do homem e da mulher e é aquele produto que mais precisa de mediação: do campo à ceifa, à debulha, ao moinho, à panificação. São pelo menos quatro mediações, sem levar em conta a distribuição. A Eucaristia nos lembra o empenho de fazer comunhão entre nós passando pela produção”[1].

Seria longo sinalizar todas as mediações necessárias para a produção do pão e do vinho. Mas é importante para compreendermos que o pão não é apenas pão e o vinho não é vinho tão somente, mas sim frutos de relações sociais. São, na verdade, a vida de nossos irmãos e irmãs incorporada neles. Quantas pessoas estão engajadas em sua produção! Para pensarmos o plantio, é necessário pensarmos a preparação da terra feita pelo camponês(a), os instrumentos necessários para essa tarefa: a enxada, o arado ou o trator. Esses, por sua vez, dependem dos que trabalharam nas minas, colhendo o minério de ferro, em circunstâncias extremamente perigosas, como também dos operários(as) que os produzem nas fábricas. Normalmente, a colheita é feita pelos boias-frias, cuja vida de sacrifícios conhecemos. Para chegar à cidade, o pão e o vinho necessitam do transporte. Caminhoneiros que percorrem grandes distâncias, enfrentando, a cada dia, os perigos de nossas estradas. Há ainda os que trabalham na produção da farinha nas indústrias, os que trabalham nas padarias e no comércio. Todo esse trabalho é realizado para que o pão e o vinho possam estar em nossas mesas e também na mesa do altar. Para ilustrarmos todo esse processo, recorremos ao esquema utilizado por E. Dussel[2], que nos ajuda na compreensão de todo o trabalho incorporado na produção do pão e do vinho:



PÃO É VIDA



    1. Ser humano:                                 2. Trabalho (ação)                                                                      3. Terra
Sujeito de necessidades Matéria

  5. Vida                                                                                                                                       4. Pão
Consumo Produto



O ser humano — homem e mulher —, no trabalho cotidiano, busca o sustento da vida diária, pois é um ser de necessidades. Seu trabalho visa produzir o necessário para que a vida possa ser produzida e reproduzida, através do consumo do fruto de seu trabalho. E como diz o Eclesiastes: “Vejam: a felicidade do homem e da mulher está em comer e beber, desfrutando o produto do seu trabalho… E compreendi também que é dom de Deus que o homem e a mulher possam comer e beber, desfrutando do produto de todo seu trabalho” (Ecl 2,24; 3,13). No entanto, quando o homem e a mulher não podem usufruir o produto de seu trabalho, surge a injustiça, que manifesta a quebra das relações de igualdade e impede que a vida seja vivida na fraternidade de irmãos e irmãs, numa mesma casa, cidade ou país.



2. O pão econômico e as relações sociais de trabalho

Quando, numa sociedade, há pessoas que não têm acesso ao produto de seu trabalho, podemos questionar sua organização, pois essa desigualdade revela a injustiça presente nas relações sociais. Ao negar o trabalho aos trabalhadores(as), o pão não pode ser partilhado de modo fraterno, pois o desemprego[3], se não mata, machuca demais. Quando a concentração da terra chega a níveis insuportáveis, como no Brasil[4], o pão não pode chegar à mesa de todos. Quando a indigência atinge 50 milhões de brasileiros[5], o pão não pode estar presente na mesa de todos, como ali­mento que dá sustento e alegria de viver. Essa realidade está em contradição flagrante com a proposta de At 4,34: “Entre eles ninguém passava necessidade, pois aqueles que possuíam terras ou casas as vendiam, traziam o dinheiro e o colocavam aos pés dos apóstolos; depois, era distribuído a cada um conforme a sua necessidade”.

O pão econômico explicita as relações de trabalho de uma sociedade. No nosso caso, o pão econômico, mal partilhado, conforme as estatísticas, revela que nossa sociedade, marcada pela desigualdade, priva muitos do exercício da cidadania plena. Mostra que a exploração continua imperando nas relações de trabalho, pois os que detêm o capital acabam mantendo os que trabalham numa situação de dependência.



3. O pão econômico é o pão da Eucaristia

O mesmo pão que comemos na nossa casa está presente na mesa do altar. Ele é fruto do trabalho do homem e da mulher, do campo e da cidade. O pão e o vinho revelam que a economia é a base da liturgia: “Trata-se de compreender a articulação entre o pão, fruto do trabalho comunitário dos homens (e mulheres) e que se troca entre os produtores, e o pão, matéria da oferta eucarística. Em um segundo nível de profundidade, é preciso articular o pão do sacrifício com o próprio corpo do profeta que se oferece na história nas lutas pela justiça, pela construção do Reino. Pão do trabalho, pão da oferta, o corpo do mártir como pão eucarístico. Isto é saber articular economia e eucaristia, a essência do cristianismo”[6].

Numa sociedade em que a economia já não mais se preocupa com o bem comum das pessoas, mas única e exclusivamente com o lucro, colocando a produtividade e as leis de mercado como parâmetros absolutos[7], a Eucaristia deve se tornar um gesto profético em favor da justiça e da partilha. A Gaudium et Spes, texto do Vaticano II, mostra que a economia deve estar a serviço das pessoas e de toda a comunidade humana: “A finalidade fundamental da produção não é o mero aumento de produtos, nem o lucro ou a dominação, mas o serviço do homem e do homem completo, atendida a hierarquia das exigências de sua vida intelectual, moral, espiritual e religiosa; de todo homem, dizemos, de qualquer comunidade humana, sem distinção de raça ou de região do mundo”[8].

Existe uma contradição entre o anúncio e a realidade. Muitas vezes, proclamamos uma verdade, mas a prática cotidiana está longe de se tornar verdadeira. Os bispos latino-americanos detectaram essa realidade, ao afirmar: “Vemos, à luz da fé, como um escândalo e uma contradição com o ser cristão, o abismo crescente entre ricos e pobres. O luxo de alguns poucos converte-se em insulto contra a miséria das grandes massas. Isto é contrário ao plano do Criador e à honra que lhe é devida”[9]. Essa mesma constatação é feita na Declaração Final do 14º Congresso Eucarístico Nacional: “Estivemos reunidos em Campinas, irmãos e irmãs, vindos das diferentes regiões do Brasil. Esta grande cidade do Sudeste acolheu-nos cordialmente. Mostrou-nos seu grande potencial humano, financeiro e tecnológico, ao mesmo tempo em que percebemos o clamor de cidadãos que sofrem, como, aliás, em todo o país, brutais contrastes entre riqueza e miséria no mesmo solo, na mesma família humana, na mesma mesa cristão[10].



3.1. A dimensão profética da Eucaristia na tradição bíblica

A tradição bíblica nos alerta para essa contradição e nos ajuda a compreender que a Eucaristia assumida tem sempre uma dimensão profética, que, muitas vezes, desemboca no martírio — como aconteceu com D. Oscar Romero, ao buscar ser coerente com a vida dos pobres, em El Salvador. O texto de Eclo 34,18-24, que serviu para a conversão de Bartolomeu de las Casas, e o texto de 1Cor 11,17-32 servem como alerta, ainda hoje, para todos os que se dizem cristãos. A Eucaristia é um sacramento, um símbolo, mas deve se concretizar na vida concreta do dia a dia, para não ter seu significado esvaziado: “O partilhar alimento e bebida uns com os outros, a celebração duma refeição especialmente entre os que são abastados e os que nada possuem, é essencial à celebração da refeição eucarística cristã. A simbolização ritual do grupo cristão, do corpo de Cristo, está ligada integralmente com a celebração duma refeição e com a bem concreta participação de todos os cristãos à mesma mesa. O símbolo central da associação cristã não é um código ou um lugar sagrado, não é uma fórmula ou ação ritual, mas a bem concreta participação numa mesma refeição em justiça e amor. A comunidade reunida ao redor da mesa do Senhor deve superar suas estratificações e discriminações sociais. Senão, torna-se culpada e responsável por ‘profanar’ a vida e morte do seu Senhor… A condição essencial para celebrar a ‘ceia do Senhor’ não é o rito cúltico, mas a partilha socioeclesial do alimento e da bebida. Todos os cristãos devem ser capazes de participar em pé de igualdade da mesa do único Corpo. Discriminações sociais destroem a comensalidade da ceia do Senhor. A participação de todos os membros da associação cristã — ricos e pobres, livres e escravos, homens e mulheres, judeus e gregos — no único pão partido constitui o único corpo, a ecclesia. O tornar-se Igreja, como também a ritualização simbólica da Igreja, não é possível sem a igualdade na concreta participação à mesma mesa. Ora, uma participação à mesma mesa em pé de igualdade requer que se abandonem as discriminações sociais entre os que participam do corpo e do sangue de Cristo. Não apenas as discussões e questões ‘eucarísticas’ dos coríntios, mas também as nossas de hoje poderão adquirir novas dimensões e impulsos teológicos, se novamente focalizarmos o caráter de refeição que tem a eucaristia como elemento constitutivo da ritualização simbólica da comunidade cristã, como também se trabalharmos por superar a discriminação social e o preconceito social como precondição essencial”[11].

Essa é a grande contradição que continua presente em nosso meio e que o 14º Congresso Eucarístico Nacional buscou denunciar em seu texto-base[12]. A Eucaristia supõe a convivência de irmãos e irmãs na mesma mesa. E quando essa realidade não existe, a Eucaristia se torna, em cada celebração, uma denúncia da realidade que impede que o pão seja partilhado entre todos: “O pão nosso de cada dia nos dá hoje” (cf. Mt 9,11). A vontade de Deus, Pai-Mãe, expressa na prática de Jesus de Nazaré, é a de que todos os seus filhos e filhas tenham vida plena (cf. Jo 10,10).



3.2. Eucaristia e divisões na comunidade

No texto de 1Cor 11,17-32, encontramos o pensamento de Paulo que critica a comunidade que não age de acordo com os preceitos do amor. Ela acaba repetindo os erros presentes na sociedade: “O ato que devia ser um sinal do festim do Reino perdia então todo o seu conteúdo. Tratava-se de uma profanização da celebração da Eucaristia”[13]. Esse é um perigo constante que ronda nossas celebrações eucarísticas, quando não há compromisso efetivo para transformar a realidade injusta que impede a presença de todos como irmãos e irmãs na mesa comum. A crítica aqui não é para os “de fora”, mas sim para os “de dentro”, para aqueles que professam a mesma fé e acreditam na presença misteriosa de Jesus no pão e no vinho, sinais visíveis da graça de Deus oferecida a todos. O esquema utilizado por E. Dussel, refletindo o texto de Eclo 34,18-24, base da conversão de Bartolomeu de las Casas, pode nos ajudar na compreensão desse desafio:





O PÃO DA ECONOMIA É O PÃO DA EUCARISTIA[14]







O pão é fruto do trabalho do pobre. Tirar o pão do pobre e oferecê-lo a Deus é, na verdade, como diz o texto bíblico, matar o filho na presença do pai. Nesse sentido, a base da Eucaristia é a economia. Por isso, toda Eucaristia celebrada deve apontar para a partilha real dos bens, retomando hoje e sempre a experiência utópica das primeiras comunidades cristãs (At 2,42-47; 4,32-35).



4. A modo de conclusão

A Eucaristia nos relembra o grande dom de amor que Jesus nos deixou como sinal de sua presença no meio de nós. Sua vida foi toda perpassada pela vivência eucarística: partilha do pão, compaixão pelos pobres, acolhimento dos pecadores e doentes. Em seu testamento, ele disse: “Fazei isto em memória de mim” (Lc 22,19). O “isto” que Jesus pede que façamos “abre-se para uma perspectiva exigente, oblativa, de doação completa da vida. ‘Fazei isto’ significa celebrar o mistério eucarístico, atualizar a memória de Jesus. ‘Fazei isto’ implica doar a vida cotidianamente. ‘Fazei isto’ significa repartir o pão em todas as suas dimensões e sentidos”[15].

A Eucaristia como fonte da missão e vida solidária indica o caminho do compromisso para todos os cristãos e cristãs: transformar a sociedade para que ela se torne casa comum de todos, onde todos e todas possam ser acolhidos e incluídos como irmãos e irmãs ao redor da mesma mesa. Essa utopia deve orientar a nossa caminhada, como orientou a vida de Antônio Costa Santos, o Toninho[16], que muito colaborou coma realização do 14º Congresso Eucarístico Nacional e foi ceifado por uma bala assassina e cruel. Que seu sangue derramado, misturado ao sangue libertador e salvador de Jesus Cristo, não tenha sido derramado em vão e possa germinar em frutos de justiça e paz, concretizando o sonho de Jesus de Nazaré: vida plena para todos e todas.